Re-criaes

Re-criaes

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Rever-se-á

Que estranho dia de sol. Sim, está sol. Posso sentir os raios invadindo a janela através da cortina verde do quarto do computador.
Ao meu lado, dentro da minha "maxi-bolsa", a Mell dorme com a pureza da falta do pecado original, até porque o diabo não tentaria uma gata com maçã. Talvez um pires com leite e, de quebra,  levaria uma bela unhada, se tentasse uma aproximação, mais efetiva. E nesse alter-mundo com dois lados de uma mesma moeda, seja ela de que país for, em mim,  retas se cruzam.
Desde ontem, duas coisas dominam meu pensamento: Dor e Alegria. Muitos fatos as cultivariam. Recriei as máquinas de tortura e também os clows de Veneza.

Dor, espinho no dedo, no roseiral da minha vó, quantos espinhos para ter em uma pequenina rosa, cor-de-rosa.
Dor, ferpa no pé, depois de andar nos terrenos baldios no bairro, onde cresci, em Minas.
Dor, as unhas da minha irmã, que ela não deixava cortar, me arranhando, quando ela fazia birra. 7 anos mais nova do que eu.
Dor, os ciúmes que eu sentia dos cachinhos dourados dessa mesma e única irmã.
Dor, a fala presa do meu pai, depois do trabalho e de alguns vários copos de cachaça e jurubeba.
Dor, as palavras duras da minha mãe, sobre sua história e sobre seu casamento, por causa e efeito sobre as filhas, também.
Dor, a menarca, primeiras dores abdominais reais para uma menina. Sangue, para que tanto...?
Dor, amiga de infância mudando de cidade para fazer faculdade.
Dor, minha mudança de cidade para fazer Jornalismo.
Dor, desacordo com os primeiros anos de graduação.

Dor. Amor. Desamor. Torpor. Temor. Tumor. Chopin e as lágrimas do seu piano. Beethoven. A marcha fúnebre de Mozart. Um epitáfio que se faz. Uma tragédia de Shakespeare, ou então as leves durezas de Caio Fernando de Abreu com seus "Morangos Mofados".

Partir. Perder. Esquecer. Ser esquecido.

Indignação: Paulo Coelho, Frutas apodrecidas dançando funk, axé, pagode...

A dor, coração partido, alma encolhida, enlatada. Querer muito mudar uma situação, mas nem pá e cal conseguem a reparação.

Dor, saudades dos meus sobrinhos, do colo da minha mãe, me fazendo cafuné, nos cabelos, durante um cochilo matutino. Saudades dos pedacinhos de mamão e de banana que meu pai coloca na mexeriqueira para os sabiás.

Como dói a partida do Astor, cachorro companheiro de 14 anos, meu scooby-doo preto e branco, mas com a língua vermelha, porque ele nunca foi corintiano.

Dor, remédios, muitos remédios, panos azuis, lágrimas maternas, escuridão, frio, agulhas em todos as veias. Uma cara fechada de enfermeira, em final de plantão. Amnésia temporária.

Dor, psicanálise, Freud, a teoria do trauma, a história da família.

Dor, entender o funcionamento real da vida...

Alegria, fica para sábado!!

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