Nesse retorno, aproveito para falar de cinema e de um filme, baseado em um livro, talvez sub-literatura, como alguns definiriam, que eu li, aos 9 anos.
Fiquei deslumbrada com a história e, até hoje, confesso, gosto dessa obra de Daphne du Maurier que nas mãos de Hitchcock, ganhou aquela estatueta famosa de Hollywood.
Pois é, eu nem sabia disso, quando peguei aquele monte de páginas para ler, furtivamente, claro (não era leitura adequada para um menina mal-chegada aos mistérios da vida), na sala da casa de uma tia, já falecida.
E,agora, depois de tantos anos, resolvi fazer um misturadinho de cinema, psicologia e palpites meus.
Aí vai:
O medo do que não
existe mais
Rebecca: a mulher
inesquecível
Ficha Técnica
Título Original: Rebecca, 1940, EUA, 130 minutos
Direção: Alfred HitchcockFicha Técnica
Título Original: Rebecca
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: David O. Selznick
Roteiro: Joan Harrison, Philip MacDonald baseado na obra de
Daphne du Maurier
Elenco: Laurence
Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce,
Reginald Denny, Melville Cooper
Produção: David O. Selznick
Roteiro: Joan Harrison, Philip MacDonald baseado na obra de
Daphne du Maurier
Elenco: Laurence
Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce,
Reginald Denny, Melville Cooper
O único filme de Alfred Hitchcock que ganhou o prêmio máximo
da academia de cinema de Hollywood, o Oscar, foi “Rebecca: a mulher
inesquecível”, que, na verdade, está longe de ser grande feito do mestre do suspense.
Mesmo, no entanto, sendo vista como uma obra “dita” menor, do
diretor inglês, assisti-la pode nos levar
a pensar, ponderar e viajar em fantasias sobre a morte e a vida, sobre o que é
real e o que é imaginário. Além de revelar, intrinsecamente, uma poderosa
ferramenta de fuga: o medo do que não existe mais e que, talvez, nem tenha
existido, de fato, mas que habita o lado menos iluminado, que existe e atua em
cada um de nós.
A história é sobre uma jovem dama de companhia (interpretada
por Joan Fontaine, que faleceu, na última semana, do ano de 2013, com mais de
85 anos) que se apaixona por um milionário inglês (Laurence Olivier), mais
velho e viúvo.
O casal se conhece em Mônaco. Depois de alguns encontros, os
dois se casam e rumam para a mansão de Manderley. Uma propriedade paradisíaca
que guardou os momentos da vida em comum do herói e sua esposa, exatamente a
Rebecca, do título, que havia morrido,
em um acidente de barco.
De toda a trama, a parte mais instigante é a influência da
figura sem vida de Rebecca, mas que sobrevive como uma sombra, um verdadeiro fantasma,
que rege e controla todas as atitudes da nova senhora de Winter - personagem de
Fontaine.
A jovem joga-se e fica imersa em um mundo onde se misturam o
ideal da linda, inteligente e sedutora mulher, que encantara a todos, durante o
tempo em que fora soberana em Manderley e
sua própria autoestima, rebaixada e colocada em xeque a cada palavra que invoca
a vívida imagem da falecida. Ela é a
personagem sem nome, declarada como inferior e substituta indesejada, até pelos
próprios criados da propriedade.
Emergindo do filme para uma análise da vida, é fácil
especular no decorrer dos dias, o sentimento de muitas pessoas que se sentem
invadidas ou assombradas por figuras mitificadas (reais ou imaginárias),
capazes de movimentar o afeto do psiquismo para baixo, em uma linha descendente
vertiginosa.
Em geral, nos momentos de luto, quando uma perda (mesmo que
simbólica e até de valores de autojulgamento) se faz mais presente do que a
vida, o domínio de criaturas espectrais é uma fonte de integridade, mas uma
integridade patológica. Como se o poder do controle imaginário, que essas espécies
de leviatãs emocionais exercem, mantivesse o ego, por inteiro, e isso acaba na
fossa de uma válvula de escape da desagregação do pensamento.
As batalhas duras e sofridas contra esses monstros tornam o
pseudo guerreiro uma vítima frágil, fácil de ser esmagado, pela primeira
palavra enviesada, ou pelo primeiro olhar “ressaqueado” (tentando entender, aqui,
o porquê de Bentinho qualificar assim os olhos de Capitu). Talvez, como a maçã
de Guilherme Tell: um alvo, colocado em cima da própria cabeça, disposta a
receber qualquer flechada, um pouco mais aguçada na pontaria.
E, de volta á história
da tela, (que pode ser tão terapêutica para a vida!) pelos olhos da jovem
senhora de Winter, vemos um desdobramento de personalidade, causado por uma
vida que não era sua e que ela aceita, e que a transforma em uma espécie de filhotinho abandonado a quem não resta outra
coisa, a não ser aceitar as esmolas de um amor que ela considera roubado.
Mas, na genialidade de Hitch, não poderia faltar a grande
reviravolta. No caminhar do filme, várias descobertas acontecem e se desvenda
uma grande alegoria, que pode se diversificar em um clichê... Nem sempre, tudo
o que reluz é ouro. Assim, nossos olhos devem se desnaturalizar para enxergar a
vida.
Que linda mensagem, hein!
E fora todo o conteúdo psicológico, Rebecca é uma obra de
arte do cinema. A fotografia é espetacular, a utilização da luz é um show a
parte. Um branco e preto, que lembra o expressionismo alemão, em alguns
momentos, e que em um jogo de claro e escuro, será uma influência declarada, para
os filmes “noir” que viriam, depois, no decorrer da década de 40.
Uma boa dica é prestar atenção na cena em que todos os
movimentos de Rebecca, já morta, são refeitos apenas com o uso de movimentos de
câmera e de uma narração.
Momento memorável no cinema.
Vale lembrar também que, pela primeira vez, com um alto
orçamento, Hitchcock faz uma mansão-personagem com a construção impressionante
de Manderley. Semente bem plantada para a futura Xanadú de Cidadão Kane.
A película foi a estreia do diretor em solo americano. Uma
estreia e tanto! Que vislumbrava e anunciava a vinda de Vertigo, Disque M para
matar, Psicose e outros filmaços do mestre.
Bom 2014 para todos. Até.