
Ditadura militar. Um 09 de janeiro qualquer, uma mulher em trabalho de parto, durante dezesseis horas, em um hospital público de Guarulhos. O único que podia recebê-la para que a "nascitura" viesse ao mundo.
Veio
Gostou
Desgostou
Arrumou
Encheu
Esvaziou e quase murchou. Mas as luzes da cidade, lâmpadas de tantas cidades, que a envolveram em mais de 30 anos, após o parto, quase sem oxigênio, a preencheram, de novo.
Nasceu, é menino!
Ledo engano, era uma menina feia, que doía, e que de fato, só veio a nascer muitos anos depois. Ficou na incubadora por mais tempo, aliás, a barriga foi meio incubadora (já pedindo desculpas, por licenci-osa poética tão mal-arranjada). Passou duas semanas do tempo contado pelo doutor ginecológico.
Talvez, não quisesse vir.
Talvez, soubesse de todos os arroubos inquietantes que viveria.
Ou, talvez, e simplesmente, era um bebê grande demais para a estrutura física da mãe.
Queria crer que o acaso comanda todas as vindas. Que os planos só acontecem no ritmo consciente das possibilidades biliares de ver a existência. Se todas as chegadas, partidas, sumiços temporários forem programados garanto que estou farta. Desisto do sentimento e, a partir de agora, não amo mais com o estômago, apenas com a vesícula.
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