Re-criaes

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O medo do que não existe. Rebecca: a mulher inesquecível.

Nesse retorno, aproveito para falar de cinema e de um filme, baseado em um livro, talvez sub-literatura, como alguns definiriam, que eu li, aos 9 anos.
Fiquei deslumbrada com a história e, até hoje, confesso, gosto dessa obra de Daphne du Maurier que nas mãos de Hitchcock, ganhou aquela estatueta famosa de Hollywood.
Pois é, eu nem sabia disso, quando peguei aquele monte de páginas para ler, furtivamente, claro (não era leitura adequada para um menina mal-chegada aos mistérios da vida),  na sala da casa de uma tia, já falecida.
E,agora, depois de tantos anos, resolvi fazer um misturadinho de cinema, psicologia e palpites meus.
Aí vai:

Livro - Lanterninha - Rebecca: a Mulher Inesquecível - Daphne Du Maurier



O medo do que não existe mais
Rebecca: a mulher inesquecível
Ficha Técnica
Título Original: Rebecca, 1940, EUA, 130 minutos

Direção: Alfred HitchcockFicha Técnica
Título Original: Rebecca
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: David O. Selznick

Roteiro: Joan Harrison, Philip MacDonald baseado na obra de Daphne du Maurier
Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, Melville Cooper


Produção: David O. Selznick

Roteiro: Joan Harrison, Philip MacDonald baseado na obra de Daphne du Maurier

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Nigel Bruce, Reginald Denny, Melville Cooper


O único filme de Alfred Hitchcock que ganhou o prêmio máximo da academia de cinema de Hollywood, o Oscar, foi “Rebecca: a mulher inesquecível”, que, na verdade, está longe de ser grande feito do mestre do suspense.
Mesmo, no entanto, sendo vista como uma obra “dita” menor, do diretor inglês,  assisti-la pode nos levar a pensar, ponderar e viajar em fantasias sobre a morte e a vida, sobre o que é real e o que é imaginário. Além de revelar, intrinsecamente, uma poderosa ferramenta de fuga: o medo do que não existe mais e que, talvez, nem tenha existido, de fato, mas que habita o lado menos iluminado, que existe e atua em cada um de nós.  
A história é sobre uma jovem dama de companhia (interpretada por Joan Fontaine, que faleceu, na última semana, do ano de 2013, com mais de 85 anos) que se apaixona por um milionário inglês (Laurence Olivier), mais velho e viúvo.
O casal se conhece em Mônaco. Depois de alguns encontros, os dois se casam e rumam para a mansão de Manderley. Uma propriedade paradisíaca que guardou os momentos da vida em comum do herói e sua esposa, exatamente a Rebecca, do título,  que havia morrido, em um acidente de barco.
De toda a trama, a parte mais instigante é a influência da figura sem vida de Rebecca, mas que sobrevive como uma sombra, um verdadeiro fantasma, que rege e controla todas as atitudes da nova senhora de Winter - personagem de Fontaine.
A jovem joga-se e fica imersa em um mundo onde se misturam o ideal da linda, inteligente e sedutora mulher, que encantara a todos, durante o tempo em que fora  soberana em Manderley e sua própria autoestima, rebaixada e colocada em xeque a cada palavra que invoca a  vívida imagem da falecida. Ela é a personagem sem nome, declarada como inferior e substituta indesejada, até pelos próprios criados da propriedade.
Emergindo do filme para uma análise da vida, é fácil especular no decorrer dos dias, o sentimento de muitas pessoas que se sentem invadidas ou assombradas por figuras mitificadas (reais ou imaginárias), capazes de movimentar o afeto do psiquismo para baixo, em uma linha descendente vertiginosa.
Em geral, nos momentos de luto, quando uma perda (mesmo que simbólica e até de valores de autojulgamento) se faz mais presente do que a vida, o domínio de criaturas espectrais é uma fonte de integridade, mas uma integridade patológica. Como se o poder do controle imaginário, que essas espécies de leviatãs emocionais exercem, mantivesse o ego, por inteiro, e isso acaba na fossa de uma válvula de escape da desagregação do pensamento.
As batalhas duras e sofridas contra esses monstros tornam o pseudo guerreiro uma vítima frágil, fácil de ser esmagado, pela primeira palavra enviesada, ou pelo primeiro olhar “ressaqueado” (tentando entender, aqui, o porquê de Bentinho qualificar assim os olhos de Capitu). Talvez, como a maçã de Guilherme Tell: um alvo, colocado em cima da própria cabeça, disposta a receber qualquer flechada, um pouco mais aguçada na pontaria.
E,  de volta á história da tela, (que pode ser tão terapêutica para a vida!) pelos olhos da jovem senhora de Winter, vemos um desdobramento de personalidade, causado por uma vida que não era sua e que ela aceita, e que a transforma em uma espécie de  filhotinho abandonado a quem não resta outra coisa, a não ser aceitar as esmolas de um amor que ela considera roubado.
Mas, na genialidade de Hitch, não poderia faltar a grande reviravolta. No caminhar do filme, várias descobertas acontecem e se desvenda uma grande alegoria, que pode se diversificar em um clichê... Nem sempre, tudo o que reluz é ouro. Assim, nossos olhos devem se desnaturalizar para enxergar a vida.
Que linda mensagem, hein!
E fora todo o conteúdo psicológico, Rebecca é uma obra de arte do cinema. A fotografia é espetacular, a utilização da luz é um show a parte. Um branco e preto, que lembra o expressionismo alemão, em alguns momentos, e que em um jogo de claro e escuro, será uma influência declarada, para os filmes “noir” que viriam, depois, no decorrer da década de 40.
Uma boa dica é prestar atenção na cena em que todos os movimentos de Rebecca, já morta, são refeitos apenas com o uso de movimentos de câmera e de uma narração.
Momento memorável no cinema.
Vale lembrar também que, pela primeira vez, com um alto orçamento, Hitchcock faz uma mansão-personagem com a construção impressionante de Manderley. Semente bem plantada para a futura Xanadú de Cidadão Kane.
A película foi a estreia do diretor em solo americano. Uma estreia e tanto! Que vislumbrava e anunciava a vinda de Vertigo, Disque M para matar, Psicose e outros filmaços do mestre.


Bom 2014 para todos. Até.





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